Os embaixadores da União Europeia (UE) aprovaram nesta quinta-feira, por maioria qualificada, a autorização para assinatura do acordo de livre-comércio com o Mercosul. A decisão, tomada no Comitê de Representantes Permanentes (Coreper), em Bruxelas, representa um avanço após mais de 25 anos de negociações interrompidas e complexas, abrindo caminho para uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo, que reúne cerca de 780 milhões de consumidores e um PIB combinado que redefine o mapa econômico global.
A ex-parlamentar italiana e advogada especializada em Direito Internacional, Renata Bueno, acompanhou o processo de perto e destaca a importância estratégica do acordo. “É um marco histórico que simboliza não apenas comércio, mas também a cooperação entre países de diferentes continentes, com potencial de gerar emprego, inovação e sustentabilidade”, afirma.
Resistências e concessões
Segundo Bueno, a aprovação enfrentou resistências significativas dentro da UE. “França, Irlanda, Polônia, Áustria e Hungria se mostraram preocupadas com o impacto nos setores agrícolas. Temores sobre concorrência em produtos como carne bovina, açúcar e etanol geraram protestos de agricultores. A Itália, inicialmente hesitante, acabou sendo decisiva para garantir a maioria qualificada após intensas negociações”, explica.
A Comissão Europeia, liderada por Ursula von der Leyen, ofereceu concessões que incluíram mecanismos de salvaguarda mais robustos, fundos de crise de €6,3 bilhões e ajustes tarifários. “Essas medidas demonstram que o diálogo pode superar divisões e equilibrar interesses econômicos e sociais”, acrescenta a advogada.
Benefícios econômicos e estratégicos
Para Renata Bueno, o tratado deve impulsionar o comércio bilateral, que atualmente supera €100 bilhões anuais. “A UE ganha com exportações industriais, como automóveis e máquinas; o Mercosul amplia sua competitividade em commodities agrícolas e minerais. Estima-se que o acordo possa gerar até 2 milhões de empregos diretos e indiretos”, diz.
Além dos benefícios econômicos, Bueno destaca impactos sociais e culturais. “Milhões de descendentes de italianos no Brasil e na América do Sul se beneficiarão de fluxos migratórios facilitados, cooperação em educação e reconhecimento de qualificações profissionais. Na Itália, o acordo fortalece laços culturais e abre portas para startups brasileiras de bioeconomia integrarem redes de inovação europeias”, comenta.
O acordo também inclui cláusulas ambientais rigorosas, alinhadas ao Acordo de Paris, que incentivam práticas sustentáveis e combate ao desmatamento. Ainda assim, desafios permanecem, como o monitoramento do cumprimento dessas medidas e a oposição de alguns países, como a França, que pode atrasar a ratificação.
Próximos passos
A assinatura simbólica do tratado está prevista para 12 de janeiro de 2026, no Paraguai, atual presidente pro tempore do Mercosul. “O acordo ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos nacionais da UE e pelos membros do Mercosul. A aplicação plena pode levar anos, mas algumas provisões poderão ser implementadas de forma imediata”, alerta Bueno.
A advogada reforça a importância de transparência e diálogo para garantir que pequenas e médias empresas também se beneficiem do acordo. “Não se trata apenas de comércio; é uma oportunidade para promover uma globalização inclusiva, sustentável e equitativa”, conclui.